Não é fácil gostar de Fuerteventura. O primeiro impacto é de facto “fuerte”, termo aliás que faz parte integrante do vocabulário desta ilha. Aqui só sobreviveram os mais fortes, os que não se deixaram abater pelo inóspito, que venceram a aridez de uma terra que pouco dá mas com muito para oferecer. À primeira vista tudo parece desolador. A paisagem é desértica, a cor predominante é o castanho, na sua multiplicidade de tons: do castanho ocre das vertentes mordidas pela erosão ao castanho quase negro, a relembrar sempre a sua origem intempestiva, vulcânica, agreste. A vegetação é escassa, praticamente inexistente, e a que brota de forma espontânea empresta os seus tons glaucos à paisagem monocromática de castanho. E no entanto, no meio deste ambiente hostil, eis que ao segundo olhar se descobre vida escondida que a amiúde ocupa este espaço: coelhos, esquilos, lagartos, cabras, burros. Os esquilos já perceberam o potencial que o turista representa na sua alimentação. São por isso presença frequente nos pontos onde é fácil promover este contacto: junto aos barrancos, em pontos de passagem entre praias ou em miradouros. As cabras pastam livremente pelos campos demarcados apenas com redes junto às estradas. Têm uma ilha por sua conta e fazem jus à sua identidade “fuerte”. Aqui e ali surgem por vezes pequenos oásis de vegetação, no seu sentido mais literal. A agrura do clima é de tal forma que apenas nos barrancos, esses grandes sulcos que as águas das chuvas entalham pelas vertentes fora, ocorrem de forma espontânea. Esta foi, para mim, a impressão mais marcante desta ilha: é impossível ficar indiferente a este ambiente tão inóspito.
Dois outros aspectos merecem alvo de destaque: as praias e o vento. O vento é presença constante e omnipresente. Sempre o foi. Em toda a ilha existem diversos moinhos que testemunham as primeiras tentativas de povoamento, sobretudo no interior da ilha onde a pouca população existente fixava residência devido às ameaças de piratas e corsários que historicamente aqui aportavam com alguma frequência.
E é claro que não poderia deixar de referir as belíssimas praias: desde os extensos areais da Jandia no sul ao semblante dunar de Corralejo no norte, onde a areia insiste em cruzar a estrada a seu belo prazer, em danças deslizantes ao sabor do vento. Sem esquecer a beleza das enseadas negras em claro contraste com o azul-turquesa que se vislumbra no mar. Guardo a saborosa recordação dos longos passeios durante a maré vazia em que passámos de praia em praia, sempre divididos entre o ficar e ceder à ânsia de conhecer a praia seguinte.
Fuerteventura é um daqueles sítios em que não se consegue fica alheio. Goste-se ou não. É por isso um local de impressões “fuertes”, que marcam e não se esquecem, diferente de tudo aquilo já conhecia. E que não irei esquecer…







Fotos de Maganita e Gaijo, Fuerteventura, Junho de 2008